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Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil

Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem - não foi homem,/ Só passou pela vida - não viveu. (Francisco Otaviano)

14.5.08

Castelo

Na realeza do amor em minha corte,
No átrio de um castelo, é onde vivo.

Lá em cima, que moras em minha torre,
Ainda em quadros e papéis antigos;
Entre traças e poeiras e livros.
A távola, os candelabros, as cortinas, os vidros;
As premissas de um passado leviano
Espalhadas pelas paredes de mármore.

Os corredores do castelo me invadem
E, a cada encruzilhada de seus cômodos,
Meus sonhos se frutam como em árvores.

Vejo um leito devassado,
Onde deitavas e dormias intermitente.
Tua sombra ainda ronda a sala,
Os espelhos e as madrugadas de deleite,
Num vestido de noiva em que te imaginara.

As flores caladas
Não exalam mais teus cheiros.
Nem a água, nem o corrimão das escadas.
Talvez num ar paralisado no tempo,
Nos dias inconcretos, nas noites cálidas.

Nos sinos de bronze do mosteiro
Que repicavam em sons helênicos,
Um som que atormenta meus medos,
Que ao mesmo tempo, também me libram.

E os cavalos, nos estábulos, relincham
Com suas patas de ferro e seus olhos de feltro.
O bispo incendiado e os peões enfurecidos,
Rejo nas planícies de meu pasto,
Rumo a tua procura e ao nosso cotejo.

Pelo passadiço do calabouço,
Corro iracundo, procurando a luz.
E sinto as velas apagarem
No teu sopro que ventanejavas
Em minha nuca.
É profundo e escuro esse lado do castelo.
O frio em que te sentia primeiro...

Abandono, a uma hora, meu destino:
Dentro do pote em que te guardo,
Vejo retalhos de uma fotografia amarelada.
Cada parte juntada, é lembrança infinita.
Assim, não sinto-me incompleto,
À vista que tenho o amor ainda vivo.

Abandono, a uma hora, minha guerra:
As entrelinhas da poesia deixada
Decifram o paralelo mundo de saudade.
Porquanto firma, em minha pele, tua pele;
Calafria tu'alma tão dentro da minha;
Teu corpo depositado no meu, sem ferida,
No esmerado corte da felicidade.