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Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil

Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem - não foi homem,/ Só passou pela vida - não viveu. (Francisco Otaviano)

16.6.07

Inacabado

Da parede dos fundos 'inda brota água infiltrada.
As janelas empoeiradas, o chão de taco rachado,
a luminária pendular,
os ruídos dos canos que dão à bebida um gosto enferrujado.
Os tapetes de pano que cobrem os buracos no piso,
os lençóis brancos sobre a mobília desmontada.
Os banheiros escuros, sem latrina ou chuveiro, nem pia.
A mágoa escondida nos armários,
cartas que voltaram de um falso destinatário,
um destino desvencilhado das amarras da vida.
O teto rabiscado de um dos quartos,
as beliches invisíveis, o baú de retratos.
Um cheiro de flor me sopra da varanda,
o mesmo cheiro da flor preferida enraizada
em minha cama.
O abajur deitado, a lâmpada estourada na sala.
Um peso no ar que não sei de onde vem:
Um peso nas pálpebras, um nó nos cílios,
um beijo que sinto nos olhos
da pétala macia dos lírios.
Uma leveza incontrolável nos mosquitos,
que mordiscam minha pele.
Um cheiro de casa abandonada
como o cheiro do meu coração
onde habita uma dor inacabada
e que, decerto, a merece.

1 Comments:

Anonymous felipe said...

Boa! E' isso ae!
Vai em frente, meu filho...
Boa analogia!

05:03  

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