Da Poesia Viva

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Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil

Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem - não foi homem,/ Só passou pela vida - não viveu. (Francisco Otaviano)

21.12.07

Qualquer Momento

Tu és quase menina
E quase velhinha,
Quando se ri sozinha
Do aconchego do sol.

Tu és pêra em fatias,
Maçã, uva e salada mista,
Quando sorri colorida,
Com vergonha de nós.

Tu és o próprio nome;
Aquela que alumia e some.
Que, em meu coração de homem,
Ergueu um muro, bloco a bloco.

Tu és o balanço da estrela
Quando em mim cambaleia;
Os decores da mesa
E a poeira do sótão.

Tu és meu castigo
Da gangorra do espírito;
A lenda e o mito;
A minha loucura e o meu lógos.

Tu és parecida comigo
Quando sou pequenino...
Que num falar ventríloco,
Sento calado em seu colo.

Tu és qualquer coisa:
Perfeccionista doida,
Do fim da crista da onda,
Aos pés de areia sólidos.

Tu és o inverso;
Um encontro eterno,
Meu amor externo
Que não conhece o ódio.

Tu és um prefixo
De negação ao lixo,
Que, num vasto brilho,
Ofusca meu lado sórdido.

Tu és meu ócio,
Amor de atraso e próximo,
Amor distante e dócil,
Amor que, eternamente, vivo.

Tu és meu amor próprio e
Meu poema-filho pródigo.
Um lar em que não moro,
Mas que em memória, visito.

Tu és tudo, acredite!
Ego, superego, inconsciência, ide...
E mesmo que eu hesite,
Tu és tudo mesmo o que sinto.

Tu és, veja, não só de dentro;
És o amor de amar fora, isento.
Amor que te amo tanto
E é, contudo, um alívio!

Tu que és um passado,
Um futuro, e um vício
Que não curo (e nem quero),
Do qual me uso sem critério,
Sempre e em qualquer momento.

Os 20 Anos de Crise (fora os de Carr)

Vivo em tempos de cólera,
quando as armas recarrego
e os batalhões, reagrupo.
Iço a bandeira, acerto as horas,
testo os canhões paralelos,
ao risco da estrada que cruzo.

É a guerra invisível,
travada nos campos da memória;
meus soldados bíblicos e
meus destróieres filosóficos
largam bombas de edifícios
e granadas de fagulhas
que arrematam
tanto meus braços,
pernas e olhos.

Minha comunicação que falha ao
meu porta-aviões. E que, assim, porta consigo também
o estandarte souvenir das últimas
medalhas - as que arranquei da súmula póstuma da vida,
uma a uma -, estrelas, cordões, batucadas e hospícios.
Que me façam bem, ou não tão bem quanto às mágoas
dos passados infinitos.

Minha guerra travada no caos
sem inimigos à vista.
Quando não sei mais se a guerra
que travo é de mim para fora
ou de fora para mim. Ou contra,
ou a favor...
Guerra externa nenhuma é altruísta
Guerra interna nenhuma é egoísta
"Guerra Total" nenhuma é nada
senão a própria vida dividida
num campo de batalha.